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01.04.2010
Duas toneladas é pouco
fonte: Revista Época

O Brasil consome dois mil quilos do remédio para emagrecer sibutramina a cada ano. Parece muito? Não é.

CRISTIANE SEGATTO


No ano passado, os brasileiros consumiram quase duas toneladas de sibutramina (um remédio para emagrecer cuja marca mais famosa é o Reductil). Essa informação, divulgada pela Anvisa na terça-feira, virou notícia de destaque nos principais veículos de comunicação do país. É um daqueles exemplos de notícia de saúde que carecem de contextualização. Dizer que os brasileiros engoliram duas toneladas de comprimidos não é suficiente para chegar a alguma conclusão.

Duas toneladas é muito? Ou é pouco? A leitura apressada dos números nos leva a crer que é muito. Quando tentamos decifrá-los, porém, percebemos que talvez os brasileiros estejam tomando pouca sibutramina. Acompanhe o raciocínio: duas toneladas são dois mil quilos. Dois mil quilos equivalem a dois bilhões de miligramas. A cápsula de sibutramina mais usada tem 10 miligramas. Isso significa que são consumidas 200 milhões de cápsulas por ano. Ou 548 mil comprimidos por dia.

Se o Brasil tem aproximadamente 17 milhões de obesos, a conta do parágrafo anterior demonstra que apenas uma pessoa a cada trinta obesas toma sibutramina. O problema, recorrente em várias áreas da saúde, é o seguinte: “Muita gente toma sibutramina e não deveria. E muita gente que precisa do remédio não tem acesso a ele”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

O acesso ao remédio deve ficar ainda mais difícil. A Anvisa decidiu incluir a sibutramina na lista de substâncias para emagrecer que podem causar dependência, como o femproporex e a dietilpropiona. Os medicamentos dessa lista (B2, como é chamada) só podem ser prescritos para um mês. Qualquer paciente que não consiga voltar ao médico em menos de um mês vai ficar sem o remédio. Esse tipo de interrupção é muito ruim para o tratamento da obesidade. “Não há evidência científica de que a sibutramina possa causar dependência”, diz Coutinho. “Essa decisão da Anvisa vai prejudicar muitos brasileiros.”

Uma saída “à brasileira” seria o médico passar a entregar ao paciente duas ou três receitas assinadas e pré-datadas. Mas isso é irregular. É provável que a decisão da Anvisa realmente crie barreiras ao consumo do remédio. Coutinho discorda da decisão. “Quando se limita o acesso ao medicamento de R$ 20 por mês, sobra apenas o Xenical. Ele emagrece menos, provoca mais efeitos colaterais e custa dez vezes mais”, afirma Coutinho.

A decisão da Anvisa não partiu do vazio. Nos últimos meses, surgiram várias preocupações em torno do consumo de sibutramina. O remédio, que atua no cérebro e aumenta a sensação de saciedade, é atualmente a principal escolha dos médicos brasileiros que prescrevem drogas contra a obesidade.

SAIBA MAIS

Na Europa, a situação é outra. A droga foi retirada do mercado depois da revelação de que ela eleva o risco de problemas cardiovasculares. Um estudo realizado com cerca de 10 mil pacientes durante seis anos revelou um aumento de 16% na incidência de infarto e derrame em pessoas que já tinham histórico de problemas cardiovasculares e tomaram o medicamento. Nenhuma morte foi verificada.

Nos Estados Unidos, o remédio continua no mercado. A agência que regulamenta medicamentos no país, a FDA, decidiu não proibir a venda da droga. Mas exigiu uma alteração na bula para tornar mais explícito o alerta de que pessoas com hipertensão e outros problemas cardiovasculares (como arritmia ou insuficiência cardíaca, AVC, doença arterial periférica, infarto ou angina) não devem tomar sibutramina.

A arte da medicina é avaliar riscos. O desafio que os médicos enfrentam, portanto, é determinar em quais pacientes os benefícios da sibutramina superam os riscos. O maior perigo, portanto, é o consumo desse remédio sem orientação médica adequada. Os especialistas sabem que muitas pessoas conseguem fraudar receitas e tomar a droga sem acompanhamento médico. Em muitos outros casos, o remédio é prescrito por médicos que não são exatamente conhecedores do assunto obesidade.

Segundo a Anvisa, entre os dez maiores prescritores de sibutramina no Brasil está um especialista em medicina do tráfego. Isso mesmo: o médico que realiza ações e estudos relacionados à prevenção de acidentes de trânsito. Entre os dez médicos que mais receitam anfepramona e femproporex (esses sim, anorexígenos que podem causar dependência) há um ginecologista e um gastroenterologista.

E há ainda os que receitam as mais malucas fórmulas para emagrecer. Elas podem conter até quinze substâncias diferentes. É quase impossível prever todos os efeitos adversos desses coquetéis. Se aceita um conselho, aí vai: fuja dessas fórmulas de emagrecimento. “Tomar hormônios tireoideanos em doses altas com o objetivo de perder peso é a maior ameaça que os obesos enfrentam”, diz Coutinho. “Isso foi abandonado no mundo todo há 40 anos mas continua sendo frequente no Brasil”.

Diante dessa realidade, portanto, o uso de sibutramina é a parte menos grave da história. Não pretendo, com essa coluna, fazer apologia ao uso de remédios para emagrecer. Nem defender a indústria farmacêutica. Se as autoridades sanitárias brasileiras concluírem que a sibutramina é perigosa (que ela faz mais mal do que bem), deve ser retirada do mercado.

Caso contrário, não podemos cultivar o preconceito contra o tratamento medicamentoso. Entendo que os comprimidos devem ser um dos últimos recursos de quem tenta emagrecer - e não o primeiro como tanta gente os encara. O melhor (para a saúde, para o bolso, para o país) é emagrecer com atividade física e reeducação alimentar. Essa é a mensagem que precisa ser difundida. Isso não significa, porém, que devemos deixar abandonados os obesos que já tentaram de tudo e não conseguiram emagrecer.

Obesidade é uma doença. Complexa, multifatorial, mal compreendida por grande parte da sociedade. Não podemos permitir que, em função da nossa ignorância a respeito dos fatores que a desencadeiam, os obesos sejam encarados como fracos e preguiçosos quando tomam remédio para emagrecer. Ou que tenham cada vez mais dificuldades de acesso ao tratamento. Tomar remédio para emagrecer não é fraqueza de caráter.

É preciso definir (com clareza e equilíbrio) quem são os obesos que precisam de remédios e quem são os obesos que não precisam. É bom ressaltar: estou falando de obesos. Pessoas que têm a doença obesidade, segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde. Não estou me referindo às pessoas magras ou com leve sobrepeso que se entopem de remédio para emagrecer para seguir o padrão de beleza inatingível ditado pela mídia. Essas pessoas precisam de outro tipo de tratamento. Em geral, psiquiátrico.

As causas da obesidade - emocionais, genéticas, sociais ou de simples balanço energético inadequado (consumir calorias demais e gastar pouco) – devem ser determinadas com cuidado, caso a caso. E sem preconceito contra nenhuma das estratégias adotadas para combatê-la. Há pessoas que definitivamente não precisam de remédio para emagrecer. Há outras que precisam. Negar-lhes esse recurso é uma crueldade.

E você? Conhece alguém que se deu bem ou se deu mal depois de tomar sibutramina ou outros remédios para emagrecer? Conte pra gente. Queremos ouvir a sua opinião.

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